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Milton Nascimento completa 75 anos; relembre trajetória

Fabio Ponso*

“Pouca idade, muito talento, resquícios do espanto no rosto imberbe, o compositor Milton Nascimento encontrou afinal a fama. Vinicius de Moraes acha que este jovem de 24 anos, nascido no Rio e criado em Minas, mais propenso a ouvir do que a falar, desponta como uma das maiores expressões renovadoras da música brasileira”. Assim O GLOBO apresentava, em 9 de setembro de 1967, o artista que conseguira o feito de emplacar três canções entre as semifinalistas do II Festival Internacional da Canção (FIC).

O imortal “poetinha” estava coberto de razão. Pouco mais de um mês depois, Milton Nascimento brilharia na final do festival, conquistando o prêmio de melhor intérprete e levando a canção “Travessia” ao segundo lugar. Desde então, sua carreira de cantor e compositor decolou, tornando-se expoente do movimento musical do Clube da Esquina nos anos 70. Aos 75 ano, mais de 50 de carreira e cerca de 40 discos gravados, Milton percorreu uma trajetória de sucessos, sendo apontado pelo júri especializado da revista “Rolling Stone Brasil” como uma das dez maiores vozes da MPB.

Milton Silva Campos do Nascimento nasceu no bairro da Tijuca, no Rio de Janeiro, em 26 de outubro de 1942. Filho de mãe solteira, ficou órfão com apenas 2 anos, passando a ser cuidado pela avó, que morava em Juiz de Fora (MG). Com 6 anos, mudou-se para Três Pontas, também em Minas, com os pais adotivos Josino Campos, dono de uma rádio, e Lília Campos, professora de música.

Ainda criança, recebeu o apelido Bituca e, influenciado pela vocação artística de sua mãe, aprendeu a tocar sanfona, gaita e violão, produzindo, por conta própria, seus primeiros acordes. Dos 13 aos 20 anos, formou, com seu amigo de infância Wagner Tiso, alguns conjuntos musicais que se apresentavam em turnês por várias cidades do interior mineiro, de onde veio sua maior inspiração:

— O meu primeiro parceiro foi o eco das montanhas de Minas. Quando garoto, eu brincava muito com isso. Ali descobri a minha musicalidade. O eco é uma coisa que está presente até hoje em meu canto — conta o artista, que começou a compor aos 18 anos, e, em 1962, com o conjunto “Holiday”, gravou o compacto simples “Barulho de trem”, primeiro registro fonográfico de uma canção de sua autoria.

Em 1963, Milton mudou-se para Belo Horizonte com a intenção de fazer vestibular para Economia. Mas a paixão pela música falou mais alto e ele acabou se envolvendo em novos projetos musicais. Nessa época, cantou e tocou em bares e clubes noturnos da cidade, participou de novos conjuntos musicais e passou a compor com mais frequência, enquanto trabalhava num escritório de contabilidade. Na capital mineira, também conheceu novos parceiros, como os irmãos Lô e Márcio Borges, além de Beto Guedes, Flávio Venturini, Toninho Horta, Tavinho Moura, Fernando Brant, Ronaldo Bastos, entre outros, que se integraram a ele e a Wagner Tiso, cantando e compondo diversas canções. Da união desses talentos, brotaria o movimento batizado, anos mais tarde, de Clube da Esquina – numa alusão aos encontros musicais que aconteciam na esquina das ruas Divinópolis e Paraisópolis, no bairro de Santa Tereza.

Em 1966, Milton Nascimento foi para São Paulo, onde conheceu Elis Regina, que gravou “Canção do sal”, sendo a primeira grande cantora a lançar uma composição sua no mercado fonográfico, e desde então, para sempre, sua musa inspiradora e intérprete favorita. No mesmo ano, defendeu a música “Cidade vazia”, de Baden Powell e Lula Freire, no Festival de Música Popular da TV Excelsior, levando-a ao quarto lugar.

Posteriormente, no II FIC, realizado no Maracanãzinho lotado, em 1967, e transmitido pela TV Globo, classificou três músicas de sua autoria para a semifinal: “Maria, minha fé” (que terminou entre as 15 primeiras colocadas), “Morro Velho” (sétima colocada) e “Travessia” (segundo lugar), esta com letra de Fernando Brant. Além disso, foi eleito melhor intérprete, tornando-se nacionalmente conhecido. Ainda em 1967, gravou seu primeiro LP solo (“Milton Nascimento”) e, em 1968, excursionou pelos Estados Unidos, onde se projetou e gravou o LP “Courage”. No mesmo ano, o artista casou-se oficialmente em cartório com a estudante Lurdeca, mas a união durou apenas um mês.

Em 1972, o velho grupo de amigos de BH, liderado por ele e por Lô Borges, lançou “Clube da Esquina”, disco que nomeou o movimento que colocou definitivamente Minas Gerais no mapa da MPB. Sucesso de crítica, a obra, permeada por temas sociais e referências às tradições culturais do estado, tornou-se um dos marcos de sua carreira e uma das mais cultuadas da história da música brasileira. A década de 70 representou, por sinal, a era de ouro da produção do artista, que lançou outros álbuns como “Milagre dos peixes” (1973), “Minas” (1975), “Geraes” (1976) e “Clube da Esquina 2”(1978). Foi nesse período também que o artista manteve um longo relacionamento com a socialite paulistana Káritas, que na época engravidou e teve Pablo Ferreira, considerado por ele como seu filho.

Em 1980, o álbum “Sentinela” rendeu a Milton seu primeiro disco de ouro, e, no ano seguinte, com “Caçador de mim”, conquistou o primeiro disco de platina. Em 1983, estourou com a música “Coração de estudante”, que se tornou hino da fase final da abertura política e do movimento das Diretas Já. Dez anos mais tarde, com o disco “Txai”, produzido a partir de experiências em comunidades de povos indígenas, chegou ao primeiro lugar da lista de world music da revista “Billboard”. Entre as músicas de seu repertório, além das icônicas “Travessia” e “Coração de estudante”, destacam-se sucessos como “Canção da América”, “Caçador de mim”, “Maria, Maria”, “Fé cega, faca amolada”, “Nada será como antes”, “Nos bailes da vida”, entre outros.

Além das parcerias com os músicos do Clube da Esquina, Milton também desenvolveu trabalhos com artistas como Gilberto Gil, com quem lançou o álbum “Gil e Milton: um encontro histórico”, em 2000. Além disso, realizou projetos com músicos e cantores estrangeiros, entre eles o disco “Angelus” (1994), gravado com convidados como Peter Gabriel e James Taylor.

Milton também produziu trilhas sonoras para o cinema e o teatro, atuou em filmes, foi gravado por grandes nomes das músicas brasileira e mundial, e realizou shows na Ásia, África, Europa e Américas do Sul e Norte. Entre diversas homenagens e reconhecimentos que recebeu ao longo da carreira, destacam-se as conquistas do Grammy na categoria world music, em 1998, com o álbum “Nascimento”, e do Grammy Latino, na categoria melhor disco pop contemporâneo, em 2000, com “Crooner”, além de dez troféus do Prêmio da Música Brasileira, de 1988 a 2014.

Em 1989, sua vida e obra foram parar no carnaval do Sambódromo do Rio de Janeiro. A iniciativa foi da Unidos do Cabuçu, do Grupo Especial. Na letra do samba, de poetas populares, os versos: “Milton Nascimento / aqui se faz presente / ele é do mundo, é de Minas / é da gente”. Uma reverência ao artista que fez de sua missão “ir aonde o povo está”.

* com edição de Gustavo Villela, editor do Acervo O GLOBO

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